Rubrica - O Corpo de Deus em Penafiel- nº1

O Corpo de Deus tornou-se, de há séculos, a festa grande da cidade e também do concelho de Penafiel, congregando vontades, outrora obrigações, mobilizando dezenas ou centenas de participantes, arrastando uma multidão que se apinha nas ruas.
Limpa-se a casa, enverga-se um trajo de festa, recebe-se a família comendo à farta carneiro com arroz de forno, abrem-se de par em par as janelas engalanadas com as colchas púrpuras que pendem, e todos ficam à espera que aconteça. 
Foi anunciada de véspera a Cavalhada, com esse momento protocolar de elogio do poder autárquico. Seguiram-se-lhe os bailes, que depois de se apresentarem às entidades oficiais desfilaram pela cidade distinguindo as casas dos honoráveis cidadãos que mais contribuíram.
Deambulou pelas ruas a Bicha-Serpe. Houve noitada com verba popular e soirées dançantes para a gente grada.
De manhãzinha uma salva de morteiros acorda os retardatários, e as músicas fazem-se ouvir pelas ruas. Os sinos de todas as igrejas da cidade repicam apelando à missa que é solene na Matriz.
A guarda de honra perfila junto à câmara e o Senhor São Jorge recebe as saudações devidas como generalíssimo do exército. Mas o que importa é a procissão. Primeiro ao fim da manhã, agora já a meio da tarde, o préstito sai solene, escoltado pelos ferreiros, com as autoridades civis e os eclisiásticos, o Santíssimo debaixo do Pálio. Logo adiante incorporam-se na frente da procissão os cavaleiros tocadores de clarim que a anunciam, os cavalos ajaezados com os telizes armoriados das velhas casas fidalgas, a irriquieta serpe, o estado de São Jorge, o boi Bento e o Carro Triunfal carregado de crianças e encimado pela figura da cidade em pose. E o desfile torna-se cada vez mais longo e complexo, com uma multitude de anjinhos e figurações sagradas, as coloridas opas e bandeiras das confrarias e as cruzes das paróquias circundantes a preceder o pálio, guardado Ferreiros e Bombeiros, seguido pelas autoridades, com as músicas a rematar.
Magnifica dizia-se outrora, com toda a solenidade e o prestigio que lhe acrescentava a participação das personalidades socialmente mais estimadas, a pegar às varas do pálio, representando o poder ou simplesmente envergando as insignias das confrarias de distinção, a procissão percorria as ruas, por muitas décadas apenas as da cidade velha, não deixando ninguém indiferente. É hoje uma relíquia, mais observada do que participada pelos adultos, com dificuldade em manter a par tradição e dignidade.
Já a manhã da véspera da festa vai em crescendo, desde o século XIX e cada vez mais reino dos meninos. Raro será o penafidelense que não reserva nas suas primeiras memórias a recordação das horas em que desfilou com o carneirinho para ir saudar o professor ou, no dia, participou compenetrado, envergando o fato novo de comunhão, na solene procissão.

Teresa Soeiro in "Dias Festivos- O Corpo de Deus em Penafiel- cadernos do Museu"

Comentários

Anónimo disse…
Só uma dica: deveria colocar o ano desses textos para poderem ser contextualizados histórica e temporalmente.