Rubrica - O Corpo de Deus em Penafiel- nº2

Em relação à Arrifana de Sousa, começou esta festa com a mudança do SS.Sacramento de S.Martinho de Moazáres (vulgo sta.Luzia), para o lugar de Arrifana de Sousa, para a nova igreja acabada em 1570 e no lugar aonde hoje existe, que nesse tempo e depois ainda se chamou Cimo da Vila; nesta mudança e, na instituição do Santíssimo na Igreja Matriz, coisa rara ainda nesse tempo nas grandes paróquias e abadias, é que começaram estas folias e a instituição da festa esplêndida do Corpo de Deus. No ano de 1676 deixou o corregedor, em capítulo de correcção, ordenado que se fizesse ao costume antigo. Saía da Igreja Matriz, no adro estava a legendária Serpe, coberta com uns panos verdes de escamas com conchas mal pintadas, mas que pelo aspecto a bicha representava um enorme crocodilo, por baixo, bem se viam seis pernas humanas, que levavam este peso às costas. O juiz da serpe era a figura mais desastrada, coxo, manco ou preto algumas vezes, vestido de calção e meia, chapéu bicudo e espadim, ia adiante e após ele a bicha, com um grande molho de silvas na cauda e, de vez em quando encostava-a às turbas arranhando, não poucas vezes, a cara dos pasmados para se arrumarem para os lados para passar a procissão.
Seguiam-se uns pretos vestidos de chocalheiros de serapilheira com varapaus nas mãos arrumando o povo para os lados.
A Dança da Retorta composta de homens e mulheres com arcos de murta e flores, o seu galão e música violas e rebeca.
A Dança dos Moleiros, figuras de homens e mulheres mascaradas tocando violas.
A Dança dos Pausinhos composta de homens e mulheres, com o seu galão e música de viola e rebeca.
A Dança dos Ferreiros, com capelas de flores na cabeça e fitas nas costas com espadas, fazendo muitas evoluções investidas, era um dança guerreira animada pelo tamboril e gaita de fole.
Algumas vezes o Baile dos Turcos era um acto entre mouros e cristãos representado na rua, onde intervinha S.Jorge libertando a Dama, tudo muito aparatoso.
Havia o Baile do Ermitão que era uma sátira à hipocrisia, mas foi proibido por algumas quadras serem pouco decentes; contudo nos fins do século passado  principios deste representou-se algumas vezes.
Haviam também os chamados bailes da desfeita para achincalhar os bailes da festa, eram as mesmas figuras da maneira mais grotesca e que por isso faziam rir mais que os bailes da Câmara.
Todos estes bailes eram dados pelos diferentes ofícios.
O Estado de São Jorge composto por doze e mais cavalos cobertos de talizes e enfeitados.
A bandeira pelos alferes, clarins adiante de S.Jorge a cavalo e os escudeiros.
O Carro dos Anjos com a figura de Penafiel em cima e os anjos espalhando flores; adiante o Boi Bento, que era o melhor boi e mais gordo, com teliz, flores e fitas muito enfeitado.
Seguia-se o anjo da guarda, os guiões, as cruzes das freguesias vizinhas. As confrarias e ordens da cidade. O clero de capas de asperges. A Câmara, administrador, juiz de direitos, escrivães e atrás o pálio com o SS.Sacramento e a tropa que havia na cidade.
À tarde corrida de touros mansos na cidade; não passando a festa dos touros, a mais do que alguns trambolhões e apoupadelas que o manso touro faz correndo e fugindo às perseguições que lhe fazem e, continua assurriada dos picadores.
Neste dia Solene ninguém passa sem comer carneiro, todos compram das manadas que vêm à praça vender!


texto: Simão Rodrigues Ferreira in "Dias Festivos- O Corpo de Deus em Penafiel"- Cadernos do Museu

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